sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O mar tá aí pra peixe

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A chuva estava perto de cair, podia sentir o cheiro do molhado como já tivesse despencado. Meu dia se encontrava em um domingo entediante e sem ocupação alguma. Me sentia um pouco inútil naquele momento, pois não fazia nada por ninguém e nem por mim mesmo. A boa noticia que, ali estirado no meio do quarto, nem ligava para isso. Como de costume, em certas horas a solidão faz de você um grande estudioso de si mesmo. Há essas alturas eu já tinha doutorado nessa matéria. Meu único defeito era que eu não conseguia assumir metade dos meus erros.

Tocava “Fever Dog” no radio e eu cantava sozinho. Fiz uma pequena comparação com o Snoopy, na cena que ele fica em cima da casinha. Talvez fosse exatamente a posição que eu estava fazia uma hora. O calor sufocava toda vez que eu lembrava que estava quente, que ironia não, pensei comigo mesmo. Com uma musica, nada para fazer e sem vontade algum de escrever algo recorri a velhos pensamentos. Reflexão é algo incrível, até você reparar que aquele erro que tentou corrigir falhou algumas vezes. Bastou cinco minutos para mandar tudo para a puta que pariu e pensar em algo decente.

Aí me lembrei de uma noite interessante, que havia quase deletado da minha mente. Subia de madrugada, em uma daquelas noites difíceis, uma rua a caminho de casa. Seguia a passos lentos, e o sereno não estava lá ajudando muito na minha volta. De repente, em um daqueles latões de entulho, pula um mendigo negão, mas todo branco, sujo de pó branco. Arregalei o olho e fiquei imóvel, fixando o olhar na cara dele. Foi quando ele me disse:

- Argh! – Cuspiu no chão e reclamou - Ainda bem que a porra do Cal me aquece – disse em um tom de bêbado mais engraçado que já tinha escutado.

Eu ainda estava perplexo, não sabia o que dizer. Então ele olhou para minha cara e disse:

- Que foi meu chapa?! Nunca viu não?

- Um negão de beiço pequeno não! – respondi sem pensar muito.

Nós dois ficamos parados por volta de uns dois segundos, foi rápido e longo ao mesmo tempo, difícil de explicar. Então ele sorriu, faltando alguns dentes, e me deu um abraço. Eu apenas ri junto com ele, seu abraço foi de alegria, alguém havia dado atenção e feito ele rir. Tem pessoas que sofrem muitas carências nesses aspectos. Dei minha toca e um moleton que estava debaixo da minha blusa e fui embora.

Então levantei do chão e fui na varanda acender um cigarro. Domingo é como ser fuzilado, você sabe que no final você vai se fuder de qualquer jeito, e seguindo o pensamento, segunda então é a bala no cérebro. Que domingo entediante, pensei, olhando para uma lagartixa que, ali imóvel, me encarava...

3 comentários:

Ana Lins disse...

Pelo menos seu domingo serviu pra virar um bom texto e deixar mais pessoas no mundo te entenderem, não?
Mas então. Não é o Snoopy que fica em cima da casinha? Pra mim o Garfield é o gato das lasanhas... :)

Paolo disse...

Poh que furo, é verdade, escrevi um pouco na pressa e não prestei atenção. Obrigado pela observação, já corrigi. E desculpa pelo erro, era domingo sabe, e eu tentava escrever um pouco para as pessoas me entenderem...

Ana Lins disse...

Hahaha tamos aí! ;)
Heroico da sua parte não se render ao domingo e tentar se fazer entender mesmo assim.