segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O último adeus

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Sentado com o pequeno pinscher em seu colo, tentava se recuperar da incrível maratona de exageros e boemia que sua vida, agora, se tornava. Algumas vezes se perguntava em que momento tudo havia mudado tanto e em que parte de sua vida havia deixado sua inocência para trás. Tinha certeza que era tudo um ciclo que não podia mais ser evitado e que precisava ser extremamente controlado para que todos os seus objetivos não se tornassem um fracasso eminente dali para frente. A cada dia se dava conta que tinha menos tempo a perder.

Quando se levantou, ajeitou seu rebelde cabelo de fios loiros e vestiu a camiseta de sua banda favorita. Os jeans já estavam a postos e a chave do carro apenas aguardando ao lado do abajur. Deu a partida e seguiu sem rumo. Os olhos claros refletiam sua sensível instabilidade diante do retrovisor. Não havia um veículo na estrada e nenhuma alma viva pelos arredores.

Após vários quilômetros percorridos através do breu, percebeu um brilho intenso a sua frente e que se posicionava bem no meio da pista. Foi diminuindo a velocidade ao mesmo tempo em que abaixava o volume do rádio. Aproximou- se da luz e estacionou. Não era possível perceber o que estava acontecendo. O brilho exagerado formava uma esfera gigantesca de luz que, por dentro, guardava a silhueta de uma pessoa. Estava incerto se deveria descer e se aproximar. Sentia um calafrio intenso. O pressentimento que algo terrível aconteceria era enorme, mas a curiosidade tomava conta de seus pensamentos. Depois de muito analisar, uma voz suave e muito convidativa ecoou em seus pensamentos:

“Aproxime-se. Não seja covarde! O presente mais importante de toda a sua vida está a sua espera. É necessário que dê apenas um passo em direção a luz. Vamos, algo extremamente especial está prestes a acontecer. Os prazeres mais intensos finalmente chegarão até você. Entre... Seja muito bem vindo... Entre...”

O medo lhe dominava por completo, mas mesmo assim decidiu avançar. Desceu do carro e lentamente chegou cada vez mais perto. A luz era fortíssima e, caso demorasse um pouco mais, percebeu que logo ficaria cego. Deu um longo suspiro e finalmente entrou. O primeiro passo dentro da incrível luz mudou todos os seus conceitos sobre o mundo que, até aquele momento, conhecia.

Estava em um quarto imenso que possuía apenas dois móveis: uma cama de casal gigantesca igual a de reis e rainhas dos séculos passados e um piano de calda preto a sua direita. A gravidade parecia ser diferente, seus passos muito mais leves e as luzes incrivelmente vivas e fortes. Uma varanda se posicionava em frente à cama e deixava a mostra um incrível mar rosado com a praia mais bela que já pudera ver. O som das ondas parecia uma canção e pelo céu completamente azul, choviam estrelas cadentes.

Quando parou de apreciar o ambiente, percebeu que uma linda mulher o esperava deitada sobre a cama. Era linda. Possivelmente a mulher mais linda que já havia visto em toda sua vida. Olhos azuis, cabelos pretos e lisos até as costas. Uma pele morena e leve como a seda, lábios suaves e uma voz melodiosa que poderia acalmar o mais raivoso animal. Ela o media enquanto ele se perdia na hipnose que sua anfitriã o havia colocado. Havia se apaixonado intensamente em uma fração de segundos e pela primeira vez conseguiu acreditar que existia o amor a primeira vista. Ela estava nua e o chamou para que se deitasse com ela na cama. O medo não existia mais e ele apenas se aproximou e deitou-se ao seu lado. Ela o abraçou intensamente e sussurrou ao seu ouvido.

– Saiba que a partir de agora não existe mais volta, mas não se preocupe pois todos os seus esforços serão recompensados essa noite. Não tenha medo, porque eu realmente te amo!

Ele não podia responder. Apenas ouvia e amava intensamente. Ela começou a despi-lo e lhe deu o beijo mais gracioso que já havia recebido. Fizeram amor como em um conto de fadas. A cada beijo, gesto, carinho e abraço sentia- se cada vez mais completo. Jamais havia sido contemplado com algo tão intenso e pela primeira vez o verdadeiro amor inundava seu coração de felicidade. Estava em êxtase e, por pelo menos uma única vez, apreciou um verdadeiro prazer pela vida. Finalmente tudo valia a pena.

Ao amanhecer, abriu os olhos e se viu imóvel com os braços e pernas amarrados em cima de uma cruz. Sua linda amada estava sentada ao piano e percebeu que ele havia acordado. Deu-lhe o sorriso mais lindo que uma garota poderia ter e começou a tocar enquanto lagrimas escorriam por seus olhos. Três garotas invadiram o quarto pela varanda. Caíram do céu e se aproximaram da cama. Eram belíssimas, mas, agora, todas eram ruivas e de olhos verdes. Pareciam gêmeas. Nuas e com estacas e martelos nas mãos foram em direção as pontas da cruz. O pavor tomou conta de seu interior e percebeu que por mais que se esforçasse, era impossível mover-se ou gritar. Estava paralisado. As estacas foram colocadas em suas mãos e pés. Ouviu um som ensurdecedor e a dor dominou todos os seus sentidos. A única coisa que podia fazer além de sofrer, era chorar. Após cinco marteladas, foi içado ao ar por uma força invisível. Crucificado, o colocaram na imensa parede em frente à cama. O sangue escorria por seus membros. As garotas saíram pela mesma varanda pela qual haviam chegado. O piano cessou e sua inesquecível anfitriã se aproximou. Deu-lhe um último beijo e desapareceu, deixando-o solitário em um mundo incrível que não conhecia.

O sangue e a dor continuaram por mais alguns dias em seu eterno sofrimento. A dor pelo abandono era ainda maior do que os ferimentos mortais ao qual estava exposto. Pôde refletir por muito tempo e chorar por mais um amor perdido. No quinto dia seu coração, finalmente, parou de bater. Ele não teve chance de, nem mesmo, dizer-lhe o último adeus.

2 comentários:

vi_valderrama disse...

Nooooossa Thi, oque foi esse texto!?!?!
Parabéns, perfeito!!!!!!

Ana Lins disse...

Incrível como você consegue viajar intensamente no caqui e dramatizar de modo a fazer inveja em muita madame por aí depois. Incrível mesmo, me gusta. =]