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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Aquarela pelo céu

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Mais um dia de trabalho chegava ao fim. Encontraria um amigo logo, logo, mas deveria esperar no mínimo uma hora e meia para podermos jantar em uma das melhores hamburguerias da cidade. Resolvi fazer todo trajeto a pé. Perderia muitos minutos e ainda enganaria meu corpo sedentário fingindo fazer algum exercício. Iria do Anhangabaú até o início da Av. Dr. Arnaldo. Era ridículo, pois esse seria o primeiro esforço físico real que praticava em muitos meses.

Era uma bela noite. Finalmente os inúmeros temporais de verão haviam dado uma trégua. A cidade estava completamente alagada, mas os céus pareciam festejar. O sol se despedia em meio uma gama de nuvens rosas, amarelas e laranjas , lembrando incríveis desenhos feitos em aquarela acima dos nebulosos prédios. Observava o movimente enquanto andava a passos lentos. Vias os carros, o trânsito, o estresse de uma das maiores cidades do mundo. Tinha tempo para reparar nas lindas garotas que desfilavam pela rua, para conversar comigo mesmo, para apreciar a vida, refletir e, também, para rir do caos a minha volta.

Nesse meio tempo, acabei chegando ao meu destino muito mais rápido do que esperava. Levei apenas quarenta e cinco minutos. Não estava cansando e meu humor andava melhor do que poderíamos esperar. Parei por um momento naquela gigantesca quitanda 24 horas, que vendia açaí e muitos outros produtos naturais, frutas etc. Passava por lá todos os dias, mas aquela era apenas a segunda vez que pisava por ali. A primeira havia sido com duas belas amigas, numa ótima tarde de domingo, três dias atrás. No caminho até a latrina pude ver mais algumas belas mulheres conversando. Preciso começar a me policiar. Flertar está deixando de ser um passatempo e tornando-se um vício. Isso poderá trazer alguns inconvenientes mais tarde. Brigas, fim de namoro e outras perversas chateações.

Como estava bastante adiantado, parei num boteco de esquina para esperar. Comprei uma garrafa d’água e sentei-me para ler. A autobiografia de Keith Richards estava me rendendo bons momentos. Intercalando entre os parágrafos, olhava ao meu redor para analisar o ambiente. A cada piscar de olhos, percebia cada vez mais a imundice que aquele lugar se encontrava. O famoso boteco sujo. A casa de todos os bêbados. O telefone celular resolveu tocar após alguns capítulos:

- E ai, Tiba! – Um apelido engraçado, mas ao mesmo tempo bastante homossexual, pelo qual ele me chamava - Onde você está, meu velho?
- E ai, meu chapa! Estou no boteco aqui da esquina. Já estou indo, espere um pouco. Abraços!
- Falou!

Terminei a página com calma e paguei minha conta. Era um verdadeiro elogio dizer que aquele lugar possuía alguma conta. Lixo, sujeira e alcoólatras por todos os lados. Não vou estranhar nem um pouco se surgir alguma doença desconhecida no meu próximo exame de sangue. Encontrei meu novo velho amigo em frente ao Burdog. Ele me aguardava com suas feições turcas e suas ótimas piadas ao lado da entrada principal. Um sujeito engraçado. Cumprimentou-me e partimos para uma volta no quarteirão.

Descemos a rua e o cigarro foi aceso. Algumas belas tragadas e viramos na primeira rua a direita. Era simples e sem movimento. Mais alguns tragos. Outra curva a direita. Os sentidos estavam cada vez mais apurados. Os cães latiam sem parar. Já nos encontrávamos em um estado bastante benevolente. Entramos na última rua para que a volta estivesse completa. Ficaria um pouco mais burro pelas próximas duas horas. A última cinza foi jogada ao chão. Paramos novamente em frente à lanchonete e decidimos entrar.

Era uma terça-feira, mas o local estava lotado. Sentamo-nos próximos a janela. As piadas seguiam em um ritmo frenético. Estava uma noite bastante engraçada. Perdemos alguns minutos até fazer o pedido. Escolhemos com cautela um delicioso Cheese Calabresa Zé Mineiro. Um molho fantástico! Enquanto aguardávamos, ficamos observando um flanelinha que cuidava dos carros na rua sem saída logo ao lado. Era um sujeito bastante diferente. Possuía grandes trejeitos homossexuais, uma fala mansa e arrastada, um rabo de cavalo peculiar e um rebolar nem um pouco sensual. Este era o guardador de carros mais peculiar que já havia visto em toda minha vida.

O precioso lanche chegou junto com uma Fanta Uva. Muitos dizem que este é o refrigerante mais odiado pela população. Outros, que apenas sujeitos goiabas e mequetrefes apreciavam tal sabor. Danem-se todos os preconceitos! Esse é certamente o refresco mais injustiçado de todos os tempos. Dei a primeira mordida. Meu Deus! Estava divino. A conversa acabou a partir do momento que apreciamos o indescritível alimento. Passamos toda a jornada em silêncio até que a comida finalmente estivesse repousando dentro de nossos estômagos. Não existem palavras para descrever tamanho deleite.

Assim que terminamos, resolvemos refletir sobre o que tinha acabado de acontecer. Nesse meio tempo, observava uma mesa oposta a minha. Um grupo de meninas que se divertiam com assuntos indecifráveis. Podia dizer que senti um pouco de raiva. Como podiam ser tão bonitas? Sorriam. Despachavam olhares inesquecíveis. O que podemos dizer? Talvez cada um nasça com aquilo que mereça.

Já estava chegando o momento de partir. Pagamos a conta, recolhemos nossos pertences e saímos. Convenci meu companheiro a irmos a pé até o Metrô Sumaré. Não era longe, mas depois de uma ótima janta, o caminho ficaria um pouco árduo. Fomos, novamente, a passos lentos. Durante o trajeto, pude ver centenas de baratas pelo caminho. Não sei se era por causa do cemitério que cortava toda a avenida ou pelo calor incrível que fazia, mas elas estavam por todas as partes. Jamais havia visto tantas em um só dia. Por toda calçada, debaixo dos sacos de lixo, atrás dos portões. O que estava acontecendo? Uma incrível paródia sul americana sobre Joe e as baratas? Devo ter esmagado, no mínimo, dez delas durante o percurso. O fim dos tempos estava cada vez mais perto.

Chegamos ao ponto. Observei os carros por cima da ponte. As infindáveis luzes da cidade e dos carros que circulam tornam os detalhes noturnos muito mais agradáveis. Fiz mais uma piada e meu ônibus chegou. Despedi-me e subi. Paguei a passagem e sentei no velho banco de apenas um lugar. Coloquei meus pés sobre a grade e relaxei. Devia pensar que estava em casa. Certamente o transporte público é o terceiro lugar que mais perco meu tempo enquanto a vida passa.

Uma linda garota oriental passou pela catraca. Havia muitos lugares vazios, mas ela acabou esperando em pé enquanto não chegávamos ao destino. E mais uma vez fiquei hipnotizado com tamanha beleza. Ela postou-se alguns metros a minha frente. Certamente ela percebeu que não conseguia de modo algum desviar meus olhos. Talvez tenha ficado sem graça ou inflado seu ego um pouco mais. Não era minha culpa. Ela era mágica. O que eu podia fazer? Claro que ela não me deu sinal algum. Nenhum sorriso nem mesmo um rápido olhar. Passei a observá-la pelo reflexo da janela.  Aquele que disser que nunca fez algo do tipo, no ônibus ou no metro, é o maior patife e mentiroso que já vi. Fiquei todo o caminho realmente encantado com suas feições. Um hábito dos novos tempos.

Devia descer. Esperei e esperei, mas ela não demonstrou nenhum sinal que sairia no mesmo ponto que eu. Droga! Provavelmente nunca mais voltaria a vê-la. Os bares estavam vazios. Esperei o sinal abrir e atravessei. Era uma grande ladeira e uma brisa refrescante soprava contra meu caminho. Uma ótima sensação. Pulei alguns degraus em grande êxtase. Minha casa ficava há alguns metros dali. É, meus caros, poderia francamente dizer que eu era um rapaz de sorte.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Dia de fúria

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Você está acordado? Hein? BAM, BAM, BAM! Levante-se! Você precisa ir ao banco. Depois ao supermercado. Aproveite que você está de pé e faça um telefonema para mim, por favor. Desça e dê remédio para o cachorro. Leve sua irmã para a recuperação. Pague as contas. Faça um resgate. Resolva os problemas com os inquilinos. Ligue para a Sabesp. Fale com o seguro. Contrate uma cuidadora de idosos confiável. Vá buscar os exames da sua avó. Vá para a faculdade. Vá consertar o carro. Vá trabalhar. Vá tomar no cú! Viver, algumas vezes, é uma puta encheção de saco.

Mal acordo e já me impõem quarenta e oito tarefas imprescindíveis como se eu não soubesse mais quais são minhas verdadeiras obrigações. Essa chuva de lamentações e ordens antes mesmo que eu tenha tempo de ir ao banheiro, urinar, lavar o rosto e refletir um pouco sobre outro dia que começa. Claro, você fica bem puto! “Você acordou de mau humor hoje, hein?” Para não ter que ofender e hostilizar as pessoas que estão a minha volta, acabo guardando todos os insultos comigo.

Tomo um copo de leite e coloco Be Here Now para tocar. Vou para o banho. O ralo está entupido. A água demora a descer e uma grande poça cheia de água e sabão molha toda a superfície do box e mais um pouco do banheiro. Seco-me, visto as roupas, pego a chave do carro e vou para a garagem. Olho o automóvel e lembro-me que ele está batido. Um prejuízo de R$ 3.000,00. Abro a porta amassada, entro e dou a partida. O dever me chama. Continuo puto!

Chegando a clínica, um gordo simpático me atende muito bem. Faz o seu trabalho e me pede para aguardar. Tento ser paciente e educadamente vou me sentar ao lado do bebedouro. Dez minutos, vinte minutos, vinte e cinco. O gordo retorna.

- Senhor, estamos com um pequeno problema, mas já estou resolvendo seu caso. Logo, logo terei uma resposta. Parece que um dos exames extraviou.
- Extraviou? – A veia do pescoço pulsa bastante visível a olho nu. – E quanto tempo deve demorar?
- Não tenho certeza, senhor.
- Tudo bem! – O pulso ainda pulsa! – Irei resolver algumas coisas e mais tarde passo aqui para pegar.

Não digo adeus nem bom dia, apenas vou-me embora. Parto para o banco. Não há nenhum lugar para estacionar. Deixo o carro em local proibido com o pisca alerta ligado. A fila é grande. Havia me esquecido que era dia de pagamento. Os caixas lotados fazem-me esperar mais uma vez. Aguardo e então uso um caixa eletrônico para pagar as contas e fazer um saque. Água, luz, TV a cabo, plano de saúde, escola, faculdade, clube, internet, gás etc... Meu Deus! Não me lembro de alguma vez terem me enviado algum dinheiro pelo Correios, mas contas, essas sim, não cessam nunca de chegar.

Saio do banco e agradeço aos céus por não ter tomado nenhuma multa. Mais uma hora se foi. Dirijo-me ao supermercado. Está cheio. Paro o carro em frente a cancela. O segurança me olha intrigado e pensa que “mais um babaca bateu o carro e terá de descer do veículo para pegar seu tíquete.” Ele apenas sorri. E eu, como mais um idiota com o carro batido, puxo o freio de mão, abro a porta, saio, pego o tíquete e a cancela se abre. Volto para o carro e estaciono. Procuro por algum carrinho, mas não vejo absolutamente nenhum. Será que havia esquecido que era o dia mundial de fazer compras? Após aguardar alguns minutos, vejo uma funcionária empurrando um carrinho vazio. Tento chamá-la.

– Senhora! – Ela não ouve.
– Senhora, por favor! – Falo um pouco mais alto, mas ela continua a empurrar.
– Minha senhora, por favor, eu preciso desse carrinho! – Mesmo gritando, ela não escuta.
Ela larga o carrinho no compartimento reservado e volta para terminar suas obrigações. Esbravejo:
- PUTA QUE O PARIU!!! – A pequena senhora olha para trás com o rosto assustado. Dessa vez você ouviu, hein? Não diz nada, pensa um pouco e se vai.

Tentei ser educado várias vezes e não adiantou. Tudo bem, admito, eu estava errado. Eram apenas 9h53 da manhã e a idosa trabalhadora já havia ouvido um belo xingamento logo no início do dia. Talvez ela também fosse passar por uma jornada difícil.

Subindo a pequena passarela, avisto um casal. A garota é linda. Eles se beijam, se abraçam e riem. Posso ver em seus olhos. Ela o ama. Sinto uma ponta de inveja e percebo o quanto sou egoísta. Não amava profundamente ninguém há mais de dois anos. Havia dispensado duas lindas mulheres que realmente queriam estar ao meu lado e agora esperava um amor irreconhecível? Nunca estar satisfeito é um dos maiores problemas da consciência humana. Continuei andando e parti para as compras. Namorar por conformismo nunca havia sido uma opção.

Frutas, carnes, congelados, produtos de limpeza, álcool, besteiras. Mais uma hora se foi. Espero na fila para pagar. Está bastante grande. Mais uma quinzena de minutos perdida. Passo o cartão, vou para o carro, guardo as compras e dou a partida. Chego na cancela e mais uma vez o idiota precisa descer do automóvel para liberar a passagem.O segurança novamente sorri. Fico ainda mais puto.

Sigo direto para a clínica. Paro o carro em frente a entrada principal e vou verificar se o exame restante, finalmente, ficou pronto. O gordo imbecil continua lá. Ele e seu sorriso contagiante estampado na face. Olha para os lados, me vê e suspira. Lá vem merda!

- Senhor, conversei com os responsáveis, mas o exame continua em análise. A previsão é que fique pronto por volta das três da tarde. – Olho para o céu. Vejo apenas um teto imundo e respiro. Acho que minha artéria vai explodir.
- Está certo, volto depois. – Não havia cordialidade alguma em minha voz. Eu não tinha esse tempo disponível.

Outra vez vou-me embora. Não digo até logo nem mesmo boa tarde. Entro novamente no veículo e ligo para minha irmã.  Uma voz nunca ouvida antes me dá as boas vindas.

- Alô! Alô – Analiso. É uma versão homossexual do Patolino.
- Chame a minha irmã, por favor! – Estava sério.
- Beleza, peraê! – Concluo que o personagem infantil gay é mais uma grande sátira da vida.
- Alô! – Ela pára e ri um pouco, enquanto faço uma boa piada sobre seu amigo.
- Vá para frente da escola, que daqui a pouco estou por ai para te pegar! Tchau.

Dirijo-me até o colégio. Minha irmã vê o carro passando e se despede de todos. Ela está linda como sempre. Tem apenas quatorze. Mais alguns anos e terei problemas. As mulheres mais bonitas fazem questão de estarem sempre com os homens mais idiotas. É uma regra social que dificilmente é quebrada. Cedo ou tarde ela aprenderia. Lágrimas e revoltas. A porcaria inconfundível da adolescência. Ela entra e voltamos ao lar.

Almoço, pego minhas coisas e vou para o trabalho. Dessa vez o trajeto será percorrido de ônibus. O calor infernal derrete minha alma. Dou o sinal e entro. Está lotado. Nenhum lugar para sentar. Esbarro em muitos e peço desculpa a cada nova curva. Notas do subterrâneo continua guardado na mochila. Ler em pé é um dos novos desafios metropolitanos. Ainda puto!

Chego ao destino. Cumprimento todos e dou um rápido telefona. Preciso ser rápido e partir. Devo entrevistar um homem no vigésimo sétimo andar de um prédio a algumas quadras de distância. Não estou com saco nenhum para descobrir, conhecer e desvendar gente nova. Ossos do ofício, e eu preciso cumpri-los.

Estou suando. Continuo a correr. Apolo ri da minha cara. Entro e pego o elevador. Subo, penso, reflito, viajo. O elevador continua a subir. Saio, agradeço a ascensorista e apresento-me ao entrevistado. Conversamos. Faço anotações. Pergunto. Tiro fotos. Ele continua a falar. O tempo passa. Ele tagarelando, eu escrevendo. A entrevista termina. Despeço-me e vou embora. Quando chego até a rua, recebo uma linda surpresa. Está chovendo. São Paulo, A Cidade da Garoa, pegue seu guarda chuva e sorria. É apenas um chuvisco. Decido continuar. Decisão errada. No meio do caminho, o chuvisco torna-se um temporal gigantesco.Praticamente um dilúvio. Chuva vinda de cima, de lado, de frente, de baixo. Maldito verão! Estou ensopado. A água corre, os sapatos parecem duas pranchas de surfe. Espero embaixo de um toldo de um boteco nojento recheado de alcoólatras e prostitutas. A chuva dá trégua e volto para o trabalho.

Encharcado, paro no oitavo andar, no qual fica a enfermaria, para pedir qualquer remédio contra gripe ou resfriado. Quer ouvir a novidade? Eles não têm esse tipo esse tipo de medicamento. Enfermaria? Afinal, que grande porcaria era aquela? O ar condicionado iria acabar com todas as minhas defesas. Resumindo, eu estava completamente fodido. Iria adoecer. Pela primeira vez compreendi o verdadeiro ódio de Michael Douglas. Estava muito, mas muito puto. Era um dia de fúria!

Continuo com meu serviço. Não houve mais novidades. Termino minhas obrigações. A cidade está inundada. José Luiz Datena delira. Era um ótimo dia para o sensacionalismo. Vou até a copa. O chá acabou. Não quero café. Volto de mãos abanando. Pego minhas coisas. Está anoitecendo.  Despeço-me de todos e vou para o ponto.

A chuva continua. O ônibus demora a chegar como nunca demorara antes. O trânsito é memorável. Sento-me. Impaciente, esqueço-me de viver. Não consigo mais contar as horas. Finalmente consigo chegar em casa. Minha bunda parece um cubo! Converso com os cães. Pelo menos meus fieis amigos de quatro patas não possuem nenhuma crítica a fazer. Subo as escadas. Tiro as roupas molhadas e jogo tudo pelos ares. A meia gruda na parede. Recordo que me esqueci de passar na farmácia. Fico, outra vez, puto. Deito-me exausto na cama. Ligo a TV. Desisto. A vida venceu.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Babilônia (Parte 2)

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“... Deixe me ir,

Preciso andar,

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar...

Escutei os conselhos do Cartola e peguei meu caminho. Uma noite fria de uma sexta qualquer, e eu, um homem qualquer. Assim como você entra em um cômodo da casa sem fazer a mínima idéia do porque está lá eu sai de casa sem fazer a mínima idéia do porque eu saí. A sexta-feira encontrava-se em uma noite de garoa fina.

Rodei de ônibus alguns longos vinte minutos, pensando seriamente na besteira que fiz ao deixar meu lar nesse frio. O hábito da loucura era algo que me botava um sorriso no rosto. Uma saudação para todos meus escritores alcoólatras, insanos, revoltados ou algo nesse mesmo seguimento. Apreciava mas tinha medo de me tornar um, podia dizer que o caminho não estava assim tão longe. Não durou muito e desisti de meus pensamentos literários e palpites sobre meu futuro e dei o sinal para descer do ônibus.

Dei conta que estava perto da baixa Augusta, e meu objetivo agora era comprar alguns livros perto da Av. Paulista. Acendi um cigarro, dei de dois a três tapas na blusa e ganhei as ruas. Ah, a Augusta! Suspirei em um tom de vagas lembranças. Meu tempo era diferente, e nem estava tão longe assim, coisa de uns quatros á cinco anos atrás. Era uma mistura de algo perigoso e atrativo, um submundo que escondia uma dezena de mistérios entre as paredes. Prostituição, jogos ilegais, bebidas para menores, drogas, casas noturnas com descontos para visitantes de primeira viagem entre outros tantos. Agora era o covil de Emos, personagens engraçados tirados do livro “Alice no país das maravilhas”. Definição de Emo: Seres da alta sociedade instalados no vazio, na inexistência, não aceitando nenhum deus, sem nenhuma opinião política, nenhuma idéia e nenhum ideal, e aceitam isso. Talvez até chorem por isso.

Eu tinha imaginação e perguntei se estava certo para o Jimi, que apenas me respondia “Purple haze are in my brain, lately things don’t seem the same...”

Eu era um fudido, mas com auto-estima. Com afinco reclamava sempre dos outros, e já estava fazendo mestrado nesta parte. Novamente eu estava tomando outra parcela de ironia. Mas temos os amigos para isso, lembrar sempre que você é um fudido. Algumas amizades importantes sempre deveram se conservar. Um amigo corretor, um amigo advogado criminal e um amigo médico.

Cortei algumas ruas para ganhar tempo. A única, e melhor, forma de entretenimento daquela noite era somente de mim para eu mesmo. Mas então que fui interrompido por uma suposta prostituta me pedindo um cigarro. Deduzi pela vestimenta dela, achei que ela não podia estar com tanto calor assim. Dei lhe o cigarro.

- E aí bonitão?! Tá afim? – Disse fazendo um gesto com as mãos insinuando aquela chacoalhada quando você faz antes de usar o desodorante.

- Agradeço! – Disse

Nada contra seus serviços e seus 120Kg. O batom vermelho entrava em conflito com seus dentes amarelos.

- Ih “qualé”? Olha só – Passou a mão pelas laterais de seu corpo – Tô no ponto! – Terminou arreganhando os dentes e mostrando a língua.

No ponto? O único ponto que ela podia se encontrar era no ponto de ônibus ou no ponto de assada. Eu sei, poderia ter evitado dormir com uma cena dessa se tivesse escutado a voz da sanidade antes de sair do meu lar.

Era uma boa sexta, que fazia frio, mas eu iria comprar alguns livros e não havia cidadão que me tirasse o bom humor naquele momento. Enfim, amanhã era sábado e o céu já dava sinais de que a chuva logo pararia.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Frases III



“Mulheres bem vestidas ganham muitos pontos ao olhar de um homem maduro, principalmente em um mundo onde, hoje em dia, a vulgaridade se tornou algo comum.”

“Sorte que temos tempo para nos valorizar. Nem sempre a culpa por não ter dado certo é minha, sua ou deles. Muitas coisas acontecem a nossa volta de tantas formas diferentes que não é possível se esquivar de todos os pequenos problemas que, juntos, se tornam relativamente grandes.”

“Nunca subestime a vida, pois o mais simples de tudo pode mesmo te surpreender.”

“O amor não fala tão alto assim quando o peso das pedras de crack em seu bolso chega a ser mais importante do que sua própria vida.”

“Por que? Talvez para que antes da morte tivesse o prazer de entender que, apesar de tudo, por dentro, somos todos iguais. Apenas sangue e carne.”

 Às vezes tento parar para pensar no que não deu certo e não consigo entender onde foi que cometemos o primeiro erro.”

“Sabia que, como tudo na vida, esse talvez se tornasse um desejo irrealizável que mais tarde seria esquecido. Não tinha medo, apenas entendia que, tristemente, a vida era, de vez em quando, assim.”

 Pessoas importantes sucumbiram diante disso e uma infinidade muito maior, que nunca sequer saberemos quem foram, também.”

“Por que na vida coisas tão simples como o amor se tornam tão complicadas?”

“A vida continua e sou realmente grato por pessoas apaixonantes surgirem a nossa volta a todo o momento.”

“Tenho muita sorte em afirmar que a felicidade sempre caminhou comigo lado a lado.”

“No fundo sabemos que poderíamos ter sido uma das melhores coisas que aconteceram em sua vida e a outra pessoa nem ao menos se dará conta disso.”

 “Acho que sou uma pessoa fácil de entreter. Não espero muito do mundo. Deve ser por isso que estou sempre feliz.”

“Alguns se esquecem que ainda há tempo para o romantismo ou simplesmente viver um grande amor apenas por uma noite.”

“Havia decidido, antes mesmo de parar um minuto para pensar, que não faria mais nada para apressar o meu dia ou fazer dele apenas mais um outro no meio dessa longínqua semana.”

 Troquei emails durante algum tempo, conheci novas pessoas e reparei que o sol tem um brilho diferente a cada novo dia.”

 “Corri para a janela, com uma raiva que jamais havia sentido. Tinha perdido algo dentro de mim, mas ainda não sabia o que era e que, ainda, apesar dos anos, não descobri o que foi.

Há quem diga que possamos ver Deus no resto de uma inocente criança, mas nunca estive preparado para encarar um pequeno demônio de frente.”

“A forma como se portava era invejável e, sem que eu percebesse, acabou me hipnotizando.”

 “Os cabelos escuros refletiam a luz do sol, e o sorriso sincero o emocionava de uma forma única que sua juventude não lhe permitia entender.”

“Havia por um momento se esquecido do que era realmente importante em sua vida.

Apenas sua presença acabava deixando aquela, sem graça, praça de alimentação, no mínimo, muito mais interessante.”

“Enquanto continuava seu caminho, pude perceber que, sem expressar nenhum esforço para se destacar dentre os demais, todos paravam para observar que ela estava, mais uma vez, indo embora.”

“Seria melhor parar um segundo para refletir se o louco era ele ou eu, afinal.”

“Algumas vezes se perguntava em que momento tudo havia mudado tanto e em que parte de sua vida havia deixado sua inocência para trás.”

“A cada dia se dava conta que tinha menos tempo a perder.”

“Havia se apaixonado intensamente em uma fração de segundos e pela primeira vez conseguiu acreditar que existia o amor a primeira vista.

A única coisa que podia fazer além de sofrer era chorar.”

“A partir de agora só nos resta olhar para o céu e perceber que uma nova estrela passou a brilhar.”

“Não posso dizer que sempre vivemos as mil maravilhas, mas nada teria sido o mesmo sem a sua companhia.”

sábado, 13 de março de 2010

Um dia de sol

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Estava sentado com os pés na beira da piscina. Lia um bom livro enquanto os raios do sol refletiam na água intensamente e davam um toque suave ao meu olhar quando encontravam as lentes de meus óculos escuros. Era um belo dia e sentia-me realmente feliz. Não sei ao certo, mas alguma aura especial rondava a minha volta.

“Welcome to the Goodtimes” tocava ao fundo e, então, como um suspiro dos céus, lembrei-me de você. Do seu sorriso e de sua beleza, da sua voz e de seu jeito meigo e único, que, infelizmente, eu pouco conhecia. Do tempo que eu perdia ouvindo minhas músicas favoritas enquanto observava atentamente suas fotos. Talvez fosse a beleza ao meu redor que me fazia recordar tudo, mas a verdade é que, naquele exato momento, você dominava completamente meus pensamentos.

Havia acabado de ler três páginas, mas não tinha conseguido prestar atenção em nada mais. Tudo bem, afinal faria minha releitura calmamente um pouco mais tarde. Parando um pouco para pensar, dava-me conta de algumas pequenas coisas. Por que eu havia deixado isso de lado? No começo tudo parecia correr tão bem.

Por outro lado, me encorajava, pois eu tinha tanto para conhecer, descobrir e me envolver. Perceber os gestos, vontades.  Entender e procurar.  E dependendo de como tudo ocorresse, não me importaria nem um pouco em me apaixonar. Era ótimo ter essa consciência, pois sabia que, como tudo na vida, esse talvez se tornasse um desejo irrealizável que mais tarde seria esquecido. Não tinha medo, apenas entendia que, tristemente, a vida era, de vez em quando, assim.

Levantei-me tranquilamente. Com os pensamentos em ordem, coloquei os óculos sobre o livro e os deixei ao chão. Dei dois passos a frente, olhei o céu e, então, mergulhei.