quinta-feira, 8 de abril de 2010

Babilônia (Parte 2)

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“... Deixe me ir,

Preciso andar,

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar...

Escutei os conselhos do Cartola e peguei meu caminho. Uma noite fria de uma sexta qualquer, e eu, um homem qualquer. Assim como você entra em um cômodo da casa sem fazer a mínima idéia do porque está lá eu sai de casa sem fazer a mínima idéia do porque eu saí. A sexta-feira encontrava-se em uma noite de garoa fina.

Rodei de ônibus alguns longos vinte minutos, pensando seriamente na besteira que fiz ao deixar meu lar nesse frio. O hábito da loucura era algo que me botava um sorriso no rosto. Uma saudação para todos meus escritores alcoólatras, insanos, revoltados ou algo nesse mesmo seguimento. Apreciava mas tinha medo de me tornar um, podia dizer que o caminho não estava assim tão longe. Não durou muito e desisti de meus pensamentos literários e palpites sobre meu futuro e dei o sinal para descer do ônibus.

Dei conta que estava perto da baixa Augusta, e meu objetivo agora era comprar alguns livros perto da Av. Paulista. Acendi um cigarro, dei de dois a três tapas na blusa e ganhei as ruas. Ah, a Augusta! Suspirei em um tom de vagas lembranças. Meu tempo era diferente, e nem estava tão longe assim, coisa de uns quatros á cinco anos atrás. Era uma mistura de algo perigoso e atrativo, um submundo que escondia uma dezena de mistérios entre as paredes. Prostituição, jogos ilegais, bebidas para menores, drogas, casas noturnas com descontos para visitantes de primeira viagem entre outros tantos. Agora era o covil de Emos, personagens engraçados tirados do livro “Alice no país das maravilhas”. Definição de Emo: Seres da alta sociedade instalados no vazio, na inexistência, não aceitando nenhum deus, sem nenhuma opinião política, nenhuma idéia e nenhum ideal, e aceitam isso. Talvez até chorem por isso.

Eu tinha imaginação e perguntei se estava certo para o Jimi, que apenas me respondia “Purple haze are in my brain, lately things don’t seem the same...”

Eu era um fudido, mas com auto-estima. Com afinco reclamava sempre dos outros, e já estava fazendo mestrado nesta parte. Novamente eu estava tomando outra parcela de ironia. Mas temos os amigos para isso, lembrar sempre que você é um fudido. Algumas amizades importantes sempre deveram se conservar. Um amigo corretor, um amigo advogado criminal e um amigo médico.

Cortei algumas ruas para ganhar tempo. A única, e melhor, forma de entretenimento daquela noite era somente de mim para eu mesmo. Mas então que fui interrompido por uma suposta prostituta me pedindo um cigarro. Deduzi pela vestimenta dela, achei que ela não podia estar com tanto calor assim. Dei lhe o cigarro.

- E aí bonitão?! Tá afim? – Disse fazendo um gesto com as mãos insinuando aquela chacoalhada quando você faz antes de usar o desodorante.

- Agradeço! – Disse

Nada contra seus serviços e seus 120Kg. O batom vermelho entrava em conflito com seus dentes amarelos.

- Ih “qualé”? Olha só – Passou a mão pelas laterais de seu corpo – Tô no ponto! – Terminou arreganhando os dentes e mostrando a língua.

No ponto? O único ponto que ela podia se encontrar era no ponto de ônibus ou no ponto de assada. Eu sei, poderia ter evitado dormir com uma cena dessa se tivesse escutado a voz da sanidade antes de sair do meu lar.

Era uma boa sexta, que fazia frio, mas eu iria comprar alguns livros e não havia cidadão que me tirasse o bom humor naquele momento. Enfim, amanhã era sábado e o céu já dava sinais de que a chuva logo pararia.

3 comentários:

Vivi disse...

Legal legal!

Gui Maldotti disse...

Porra mano curti esse texto!
ficou mt foda!

leonel disse...

olá, amigo! Gosto muito do que escreves. Tenho um blog de colunistas semanais, em formação, e, gostaria de te convidar a conhecer, e, se quiseres também participar.

Abraço do Leonel!

http://contandoatemil.blogspot.com/