sábado, 24 de abril de 2010

Ressaca de emoções

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Acordou com o sol queimando sua retina. Estava desnorteado, sem lembranças e em um lugar muito longe de casa. Ouvia o barulho das ondas e sentia o calor infernal. Estava jogado na praia sem documentos e apenas com as roupas do corpo. Somente algumas peças. Uma camisa branca cheia de marcas de batom e sua inseparável calça jeans. Os tênis? Se não lembrava os acontecimentos recentes da noite anterior, jamais poderia recordar o verdadeiro destino que seu surrado calçado poderia ter tido.

Levantou-se com dificuldade, olhou o mar, apanhou as duas garrafas vazias do chão e se dirigiu até a estrada. Pelo caminho, batia nas roupas para tirar a areia e lutava para combater o cansaço. Estava com uma sede incrível e algumas pontadas inconvenientes no lado esquerdo da testa. Era uma dor que realmente incomodava. A ressaca, desta vez, era das grandes. Ao mesmo tempo em que implorava ao mundo por um óculos escuro, perguntava-se onde havia encontrado tanto dinheiro para comprar uma garrafa de Jack Daniel's e um belo Rosso di Montalcino.

Os fios castanhos e desajeitados de seu cabelo brilhavam cada vez mais e os olhos suplicavam por um momento de lampejo. Sua camisa estava carregada com um perfume único, mas irreconhecível. Uma fragrância suave e muito natural. Lembrava-se apenas de uma linda garota de cabelos negros e olhos azuis que dançava ao seu lado. Por um momento se entregaram a uma troca de olhares mútua e sorriram discretamente. Aproximaram-se lentamente, tocaram levemente as mãos e beijaram-se no terraço. A lua os observava com atenção e no meio do baile todos paravam por um momento para apreciar o romance com um pouco de carinho e admiração. Mas eram apenas essas suas ultimas lembranças. Não recordava nomes, muito menos o que havia acontecido desde então.

Chegou na calçada e jogou as garrafas no primeiro cesto de lixo que encontrou. Não tinha noção das horas, mas era um belo dia e muitas pessoas passeavam pelas ruas. Os mais diversos tipos apenas aproveitando um pouco mais a vida. Todas as pessoas que cruzavam o seu caminho acenavam com dedicação e lhe dirigiam grandes sorrisos. Lindas garotas trocavam olhares insinuantes pela estrada afora fazendo com que o longo caminho se tornasse menos tedioso. O porque de tudo isso era um mistério bastante prazeroso.

Talvez tenha demorado uma hora e meia para chegar até em casa. Ainda estava perplexo com a reação de todos. Virou as chaves vagarosamente e atirou-se ao sofá para descansar e refletir. Uma velha canção voltou a ecoar em sua mente e ele se sentiu obrigado a ir até o piano para tocá-la mais uma vez. Era uma bela música, afinal ele a tinha feito para uma linda garota que, por sinal, nunca se importara muito com a composição. Ele obteve apenas um simples obrigado como resposta. Isso, realmente, o deixava perturbado. Não porque esperasse que ela se atirasse a seus pés ou lhe admirasse com um grande amor, mas porque necessitava que dessem um pouco de valor ao seu gesto. Será que ela não percebia que, mesmo daqui a cinquenta anos, possivelmente, ninguém mais faria algo semelhante? Ele deixou claro que não correria mais atrás, já que, por seus princípios, tinha certeza que não valia a pena insistir quando não compreendiam suas intenções. Isso feriu o orgulho da menina de uma forma tão grande que nunca mais ela quis lhe olhar nos olhos. Ela, provavelmente, desconhecia o verdadeiro motivo de sua raiva.

Seu orgulho chegava a ser até maior que o rancor dela, o que fazia com que ninguém tentasse uma nova reaproximação. Não que fosse necessário, mas era trabalhoso fingir que o outro não existia quando passavam a dividir o mesmo ambiente alguma vezes. Era um desconforto desnecessário, mas que ambos disfarçavam não sentir. Porém, ainda havia algo que ninguém poderia negar: mesmo com a indiferença, ela continuava linda.

O último acorde foi tocado e ele se levantou satisfeito por suas próprias habilidades. Tinha orgulho de sua criatividade e, principalmente, de tudo o que escrevia. Foi até o bar e preparou uma pequena dose, afinal já estava escurecendo e mais uma grande noite chegaria. Foi até a vitrola, escolheu um ótimo disco e o colocou para tocar em um volume razoável. Sentou-se novamente e chacoalhou levemente o copo. Tomou um grande gole e voltou a apreciar a vida. 

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um amor para cada um

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Engraçado que algumas pessoas de vez em quando vinham lhe perguntar sobre o amor. Costumava ser irônico, pois estava solteiro há um bom tempo e o amor normalmente não é algo simples de explicar, principalmente quando não estamos amando ninguém. É verdade que ele tinha um estigma romântico, mas isso não se aplicava tanto assim nas relações casuais ou talvez sim, porém ele nem sequer percebia.

Quando o assunto era levado à tona em alguma mesa de bar, discussões calorosas aconteciam diante dos amigos e conhecidos, mas na maioria das vezes ele estava do lado oposto ao que a maioria se apoiava. Isso era ótimo, pois sabia que pensava diferente. Sempre soube o quanto estava disposto a se entregar em algo que realmente acreditasse. O que, algumas vezes, o incomodava era o quanto os outros estariam dispostos a receber.

Seus conselhos eram realmente sinceros, mas com certeza não significavam a verdade absoluta. Provavelmente nem meia verdade para aqueles que não compartilhavam dos mesmos princípios. O que não queria dizer que não houvessem sobre o que refletir quando suas crenças eram espalhadas pelo ar ao lado de algumas doses de whisky.

Ele certamente se recordava com carinho dos lindos momentos que o amor, um dia, já lhe trouxera. Infelizmente são apenas boas lembranças que não podem trazer as belas sensações vividas de volta, porque quando o amor acaba é extremamente difícil lidar com a perda, principalmente quando o amor que terminou não foi o seu.  Porém, ainda assim, tinha plena convicção que não podemos, nunca, tentar buscar o passado em novas relações.

O amor não se espera, ele simplesmente acontece. O amor não se cria, ele desperta em nosso coração como se já estivesse lá durante muito tempo aguardando que alguém especial fosse capaz de acordá-lo. O amor não anseia por provas. O amor não cobra. O amor se entrega e não pede nada em troca.O amor não mede palavras, gestos ou carinhos. O amor é incondicional. O amor não se mede. O amor não se importa com o que os outros pensam. O amor é único. O amor não se esconde. O amor não se divide.

Mas independente de tudo, o que mais lhe preocupa é que, hoje em dia, cada vez mais, o amor não ama ninguém.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Babilônia (Parte 2)

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“... Deixe me ir,

Preciso andar,

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar...

Escutei os conselhos do Cartola e peguei meu caminho. Uma noite fria de uma sexta qualquer, e eu, um homem qualquer. Assim como você entra em um cômodo da casa sem fazer a mínima idéia do porque está lá eu sai de casa sem fazer a mínima idéia do porque eu saí. A sexta-feira encontrava-se em uma noite de garoa fina.

Rodei de ônibus alguns longos vinte minutos, pensando seriamente na besteira que fiz ao deixar meu lar nesse frio. O hábito da loucura era algo que me botava um sorriso no rosto. Uma saudação para todos meus escritores alcoólatras, insanos, revoltados ou algo nesse mesmo seguimento. Apreciava mas tinha medo de me tornar um, podia dizer que o caminho não estava assim tão longe. Não durou muito e desisti de meus pensamentos literários e palpites sobre meu futuro e dei o sinal para descer do ônibus.

Dei conta que estava perto da baixa Augusta, e meu objetivo agora era comprar alguns livros perto da Av. Paulista. Acendi um cigarro, dei de dois a três tapas na blusa e ganhei as ruas. Ah, a Augusta! Suspirei em um tom de vagas lembranças. Meu tempo era diferente, e nem estava tão longe assim, coisa de uns quatros á cinco anos atrás. Era uma mistura de algo perigoso e atrativo, um submundo que escondia uma dezena de mistérios entre as paredes. Prostituição, jogos ilegais, bebidas para menores, drogas, casas noturnas com descontos para visitantes de primeira viagem entre outros tantos. Agora era o covil de Emos, personagens engraçados tirados do livro “Alice no país das maravilhas”. Definição de Emo: Seres da alta sociedade instalados no vazio, na inexistência, não aceitando nenhum deus, sem nenhuma opinião política, nenhuma idéia e nenhum ideal, e aceitam isso. Talvez até chorem por isso.

Eu tinha imaginação e perguntei se estava certo para o Jimi, que apenas me respondia “Purple haze are in my brain, lately things don’t seem the same...”

Eu era um fudido, mas com auto-estima. Com afinco reclamava sempre dos outros, e já estava fazendo mestrado nesta parte. Novamente eu estava tomando outra parcela de ironia. Mas temos os amigos para isso, lembrar sempre que você é um fudido. Algumas amizades importantes sempre deveram se conservar. Um amigo corretor, um amigo advogado criminal e um amigo médico.

Cortei algumas ruas para ganhar tempo. A única, e melhor, forma de entretenimento daquela noite era somente de mim para eu mesmo. Mas então que fui interrompido por uma suposta prostituta me pedindo um cigarro. Deduzi pela vestimenta dela, achei que ela não podia estar com tanto calor assim. Dei lhe o cigarro.

- E aí bonitão?! Tá afim? – Disse fazendo um gesto com as mãos insinuando aquela chacoalhada quando você faz antes de usar o desodorante.

- Agradeço! – Disse

Nada contra seus serviços e seus 120Kg. O batom vermelho entrava em conflito com seus dentes amarelos.

- Ih “qualé”? Olha só – Passou a mão pelas laterais de seu corpo – Tô no ponto! – Terminou arreganhando os dentes e mostrando a língua.

No ponto? O único ponto que ela podia se encontrar era no ponto de ônibus ou no ponto de assada. Eu sei, poderia ter evitado dormir com uma cena dessa se tivesse escutado a voz da sanidade antes de sair do meu lar.

Era uma boa sexta, que fazia frio, mas eu iria comprar alguns livros e não havia cidadão que me tirasse o bom humor naquele momento. Enfim, amanhã era sábado e o céu já dava sinais de que a chuva logo pararia.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Frases III



“Mulheres bem vestidas ganham muitos pontos ao olhar de um homem maduro, principalmente em um mundo onde, hoje em dia, a vulgaridade se tornou algo comum.”

“Sorte que temos tempo para nos valorizar. Nem sempre a culpa por não ter dado certo é minha, sua ou deles. Muitas coisas acontecem a nossa volta de tantas formas diferentes que não é possível se esquivar de todos os pequenos problemas que, juntos, se tornam relativamente grandes.”

“Nunca subestime a vida, pois o mais simples de tudo pode mesmo te surpreender.”

“O amor não fala tão alto assim quando o peso das pedras de crack em seu bolso chega a ser mais importante do que sua própria vida.”

“Por que? Talvez para que antes da morte tivesse o prazer de entender que, apesar de tudo, por dentro, somos todos iguais. Apenas sangue e carne.”

 Às vezes tento parar para pensar no que não deu certo e não consigo entender onde foi que cometemos o primeiro erro.”

“Sabia que, como tudo na vida, esse talvez se tornasse um desejo irrealizável que mais tarde seria esquecido. Não tinha medo, apenas entendia que, tristemente, a vida era, de vez em quando, assim.”

 Pessoas importantes sucumbiram diante disso e uma infinidade muito maior, que nunca sequer saberemos quem foram, também.”

“Por que na vida coisas tão simples como o amor se tornam tão complicadas?”

“A vida continua e sou realmente grato por pessoas apaixonantes surgirem a nossa volta a todo o momento.”

“Tenho muita sorte em afirmar que a felicidade sempre caminhou comigo lado a lado.”

“No fundo sabemos que poderíamos ter sido uma das melhores coisas que aconteceram em sua vida e a outra pessoa nem ao menos se dará conta disso.”

 “Acho que sou uma pessoa fácil de entreter. Não espero muito do mundo. Deve ser por isso que estou sempre feliz.”

“Alguns se esquecem que ainda há tempo para o romantismo ou simplesmente viver um grande amor apenas por uma noite.”

“Havia decidido, antes mesmo de parar um minuto para pensar, que não faria mais nada para apressar o meu dia ou fazer dele apenas mais um outro no meio dessa longínqua semana.”

 Troquei emails durante algum tempo, conheci novas pessoas e reparei que o sol tem um brilho diferente a cada novo dia.”

 “Corri para a janela, com uma raiva que jamais havia sentido. Tinha perdido algo dentro de mim, mas ainda não sabia o que era e que, ainda, apesar dos anos, não descobri o que foi.

Há quem diga que possamos ver Deus no resto de uma inocente criança, mas nunca estive preparado para encarar um pequeno demônio de frente.”

“A forma como se portava era invejável e, sem que eu percebesse, acabou me hipnotizando.”

 “Os cabelos escuros refletiam a luz do sol, e o sorriso sincero o emocionava de uma forma única que sua juventude não lhe permitia entender.”

“Havia por um momento se esquecido do que era realmente importante em sua vida.

Apenas sua presença acabava deixando aquela, sem graça, praça de alimentação, no mínimo, muito mais interessante.”

“Enquanto continuava seu caminho, pude perceber que, sem expressar nenhum esforço para se destacar dentre os demais, todos paravam para observar que ela estava, mais uma vez, indo embora.”

“Seria melhor parar um segundo para refletir se o louco era ele ou eu, afinal.”

“Algumas vezes se perguntava em que momento tudo havia mudado tanto e em que parte de sua vida havia deixado sua inocência para trás.”

“A cada dia se dava conta que tinha menos tempo a perder.”

“Havia se apaixonado intensamente em uma fração de segundos e pela primeira vez conseguiu acreditar que existia o amor a primeira vista.

A única coisa que podia fazer além de sofrer era chorar.”

“A partir de agora só nos resta olhar para o céu e perceber que uma nova estrela passou a brilhar.”

“Não posso dizer que sempre vivemos as mil maravilhas, mas nada teria sido o mesmo sem a sua companhia.”

terça-feira, 30 de março de 2010

Babilônia (Parte 1)



Enquanto eu escrevia reparei que minha mão direita dava pequenos espasmos indicando algum trauma recente. Estava novamente no mesmo quarto, aquele mesmo da famosa inspiração. Sem esforço algum eu já havia decorado para tal ocasião, com duas ou três latas vazias da minha cerveja convencional, o cinzeiro recheado de bitucas de cigarros e uma agradável música completavam todo elemento. Roupas e acessórios fotográficos espalhados pelo pequeno quarto deixavam ainda mais confortável. Bom, o que faltava mesmo? Whisky? Whisky ou uísque? Que seja, estando ele em um belo copo de vidro com algumas pedras de gelo era o que importava. Mas havia esquecido que realmente estava faltando era uma história interessante.

Podia começar contado a história do bêbado no banheiro? Bêbados de novo. A natureza havia me chamado para a missão diária, só que infelizmente era noite de carnaval e eu estava em plena rua, longe de casa. Tive que apelar para um banheiro próximo da balsa, mesmo porque a casa onde eu estava era do outro lado da balsa. Se tinha uma coisa que eu amaldiçoava era isso, missão fora de casa. Mas se o dever o chama eu era um soldado intitulado “corajoso”. Conversava com os anjos ao estilo de Chico Xavier, que ele me perdoe por essa comparação, em meio ao silêncio aterrorizante que foi aos poucos sendo quebrado com o barulho da multidão bem ao fundo. Mas é claro que não ia durar muito, até o momento que me assustei com os passos apressados que entraram no banheiro. Continuei concentrado apenas levantando a cabeça e olhando sobre os óculos, com uma mão apoiando a cabeça, que estava pesada, e a outra em volta da cintura. Seja quem for agora tinha minha atenção.

O banheiro possuía apenas um Box, que diga-se de passagem já estava ocupado demais. Então dois pés pararam exatamente em frente à porta. Cheguei a uma rápida conclusão de que: Um, não era o saci porque tinha dois pés, e dois, que eram de um homem pois ali era um banheiro masculino (não tinha tal certeza porque na pressa...enfim!). Então ele bateu algumas vezes e fez a ridícula pergunta “se tinha alguém ali”. Não respondi, amizade era ultima coisa que eu queria no momento. Bateu mais algumas vezes, só que desta vez calado, e eu continuei quieto. Estava olhando o tênis em estado de decomposição quando ouviu o zíper da calça se abrir. Aí sim, um tal frio na espinha anunciava perigo eminente. Agora eu estava em posição de ataque, se o cidadão der um passo em falso ou pronunciar uma palavra errada eu iria tentar quebrar o pescoço dele.

Foi que então ouvi um barulho de liquido batendo sobre a porta de madeira do Box. Eis então que o artista faz sua obra de arte, demorei alguns segundos para acreditar no que aquele sujeito estava fazendo. Mijando na porta do meu banheiro, onde e quando havia sido tão bruscamente insultado. Tomei gosto pela comédia da vida, agora eu presenciava uma delas. Fiquei puto da minha cara na hora, dei um chute na porta. – Oh seu saco de merda! - O insulto o afetou tanto que o cidadão apenas me justificou tal ato com um arroto de bêbado e caminhou em direção a saída do banheiro. Então calmamente pulei a poça de mijo ao sair do banheiro e fui lavar as mãos. Olhei meu reflexo e ri de mim mesmo, pensando como eu consigo ser o maior imã de perturbados mentais que essa terra pariu.

Recheava meu caderno com esse tipo de história, mas as tais inspirações para um conto de arrancar suspiros encontrava-se na mesma distância que a neve encontra o deserto. Só que ao mesmo tempo me conforta saber que eu sou responsável por estar contando isso. Eu conto para as pessoas criarem um conceito de sociedade? Longe disso, o conceito já está criado. A questão é saber somente distinguir. Então mais uma vez fecho meu caderno, acendo o meu cigarro e me apoio sobre a janela, que batizei de TV da vida real.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu não entendo

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Eu não entendo porque as pessoas fingem ser verdadeiras amigas e depois lhe apedrejam pelas costas. Porque nos viram a cara. Porque nos ignoram. Porque fazem o possível para nos manterem longe mesmo sem existir motivo algum para tal reação. Porque algumas pessoas, simplesmente, não atendem ao telefone. Porque fazemos questão de destruir a natureza. Porque maltratamos os animais. Porque reclamamos da vida sem razão. Porque jogamos lixo no chão sabendo que vamos encontrar um entulho logo a frente.

Eu não entendo a falta de compromisso. A falta de interesse nas relações. A falta de civilidade no trânsito. A falta de ambição. A falta de sinceridade. A falta de visão para perceber que o fundo do poço está cada vez mais próximo. A falta imensa de respeito com os pais, mestres e idosos. A falta de educação. A falta de satisfação com quem realmente se importa. A falta de cultura por escolha pessoal. A falta de liberdade. A falta de privacidade.

Eu não entendo o sangue frio de pessoas que não se importam em matar pais, filhos e amigos. O descaso com a pontualidade. O conformismo em continuar um casamento quando não existe mais amor. O medo das pessoas de ficarem sozinhas. O empenho que temos em negar que nossa alma gêmea está aqui a nossa frente. O desperdício de oportunidades. O desejo em prejudicar aqueles que são honestos. O prazer em se relacionar com as pessoas erradas. O conformismo mútuo. O sucesso instantâneo de falsos ídolos. O fanatismo religioso.

Eu não entendo as mulheres. A cultura do brasileiro. A devoção exagerada. A autoflagelação. A razão de o sensacionalismo mexer tanto com o público. A ausência do pensamento positivo. A violência doméstica. A violência com o sexo oposto. A violência desnecessária. A insistência na ignorância. A falsidade constante. As mentiras em excesso. A dificuldade enorme em poder viver e morrer fazendo somente aquilo que desejamos.

Eu não entendo como um país tão bom pode ter um governo tão corrupto. Como estamos acostumados a receber o pior sem nada fazer. Como aceitamos o fracasso e voltamos ao lar como se tivéssemos passado pelo melhor momento de nossas vidas.

Eu não entendo. Eu tento! Juro que realmente me esforço, e, mesmo assim, não entendo. Gostaria de, ao menos, algumas respostas. Pelo menos algumas.

sábado, 13 de março de 2010

Um dia de sol

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Estava sentado com os pés na beira da piscina. Lia um bom livro enquanto os raios do sol refletiam na água intensamente e davam um toque suave ao meu olhar quando encontravam as lentes de meus óculos escuros. Era um belo dia e sentia-me realmente feliz. Não sei ao certo, mas alguma aura especial rondava a minha volta.

“Welcome to the Goodtimes” tocava ao fundo e, então, como um suspiro dos céus, lembrei-me de você. Do seu sorriso e de sua beleza, da sua voz e de seu jeito meigo e único, que, infelizmente, eu pouco conhecia. Do tempo que eu perdia ouvindo minhas músicas favoritas enquanto observava atentamente suas fotos. Talvez fosse a beleza ao meu redor que me fazia recordar tudo, mas a verdade é que, naquele exato momento, você dominava completamente meus pensamentos.

Havia acabado de ler três páginas, mas não tinha conseguido prestar atenção em nada mais. Tudo bem, afinal faria minha releitura calmamente um pouco mais tarde. Parando um pouco para pensar, dava-me conta de algumas pequenas coisas. Por que eu havia deixado isso de lado? No começo tudo parecia correr tão bem.

Por outro lado, me encorajava, pois eu tinha tanto para conhecer, descobrir e me envolver. Perceber os gestos, vontades.  Entender e procurar.  E dependendo de como tudo ocorresse, não me importaria nem um pouco em me apaixonar. Era ótimo ter essa consciência, pois sabia que, como tudo na vida, esse talvez se tornasse um desejo irrealizável que mais tarde seria esquecido. Não tinha medo, apenas entendia que, tristemente, a vida era, de vez em quando, assim.

Levantei-me tranquilamente. Com os pensamentos em ordem, coloquei os óculos sobre o livro e os deixei ao chão. Dei dois passos a frente, olhei o céu e, então, mergulhei.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O tempo



Fazia tempo, não é?
E por mais que o tempo passe
Parece mesmo que não chegou a passar
Tanto tempo assim

O tempo passa, não é?
Daqui a sete anos você estará com trinta
E junto a ele algumas dores se vão, às vezes medos e, também, muitas oportunidades
Mas as lembranças mais vivas nunca se apagarão

Ainda tenho medo
Muito medo de envelhecer
Pois a cada dia que passa
Temos menos tempo para viver, para amar, para sorrir

Qual a chance de tudo isso dar certo?
Será que podemos viver um amor eterno?
Poderemos ser felizes até o final?
O quão difícil será conservar a alma de uma inocente criança?

E mais uma vez
Somente ele
O Tempo
Poderá me dizer


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Mais um dia

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O ano mudou, os tempos mudaram e muitas coisas começaram a acontecer. Antigos planos voltaram a tona e objetivos deixados para trás, mais uma vez, mostraram-se assombrosos, inovadores e com um potencial monstruoso. Ele havia colocado em sua cabeça que 2010 seria o ano em que sua pacata vida finalmente entraria nos eixos e algo realmente grande aconteceria. Ele sabia que era necessário estar com a cabeça no lugar e continuar seguindo a vida, mas sem esquecer o que deveria ser feito, pois, assim, sua grande chance logo chegaria.

Todos os dias o celular despertava exatamente às 06h54min da manhã. Por que às 06h54min? Ele guardava certo receio para marcar seus horários em números exatos desde que perdera o encontro mais importante de sua vida há alguns anos atrás. Depois se levantava lentamente, cumprimentava seu pequeno pinscher preto e todas as manhãs o animal ficava tão eufórico com seu despertar que as sete horas de sono pareciam ter durado uma incrível eternidade para o pequeno cão.

Assim que tomava o café, subia, cambaleando, as escadas e parava em frente ao espelho. Ficava sempre alguns segundos admirando seu reflexo e percebendo como, pouco a pouco, estava envelhecendo. Ele, seu velho samba-canção listrado e seus cabelos claros extremamente desarrumados. Então escovava seus dentes com muita atenção, depois escolhia um disco com cuidado e colocava a vitrola para tocar enquanto tomava seu banho matinal. Nos últimos dias Eric Clapton, Jeff Beck e Humble Pie haviam soado muito bem.  Quando terminado, vestia sua calça jeans, colocava um velho tênis surrado e perdia alguns minutos escolhendo uma de suas velhas camisetas, que, de tão velhas, era quase impossível identificar a estampa. Já pronto, dirigia-se até o metrô.

No caminho, perdia um bom tempo apreciando as pessoas e os tipos mais estranhos e curiosos de trabalhadores. Outro ritual, que praticava com afinco, era observar as belas mulheres com que se deparava pelo caminho. Poderíamos dizer que eram amores platônicos instantâneos que mexiam por alguns instantes com suas emoções e que provavelmente, após algumas estações, nunca mais voltaria a vê-las. Quando não havia ninguém, entretinha-se com um bom livro. Há alguns dias, Bukowski mostrava-se uma excelente leitura.

Frequentemente quando chegava ao seu destino, dava-se conta de como certas coisas haviam mudado. A garota pela qual, um dia, havia se apaixonado, simplesmente esquecera de sua existência ou parecia que não mais o conhecia. Algumas vezes perguntava-se como tudo havia acabado assim. E pessoas quais nutria uma grande simpatia, não mais o cumprimentavam e, como resposta, ele nunca perdia a simpatia, mas aos poucos acabou perdendo cada vez mais o contato.

Após uma manhã cheia de tarefas, alegria e aprendizado, partia para o trabalho. Mais uma vez no metrô e mais uma vez com os velhos hábitos, seguia a sua estrada. Logo que chegava, exercia suas tarefas com perfeição e, assim, acabava perdendo o entusiasmo, pois seus compromissos, agora, não continham nenhuma novidade. Gastava um bom tempo pensando em como poderia ganhar dinheiro de uma forma honesta e que realmente o fizesse feliz, porém dava-se conta do quanto a vida era dura algumas vezes. Seu expediente acabava e retornava calma e tranquilamente para o seu lar.

Quando entrava em casa, perdia um bom tempo brincando com seus animais de estimação e depois subia as velhas escadas de volta para o seu querido quarto. Lá gastava as últimas horas do seu dia escrevendo tudo o que lhe interessasse ou lhe viesse à cabeça. Depois retirava sua Fender Stratocaster do suporte e dedilhava algumas notas na guitarra. Quando muito inspirado, escrevia belas canções e sentia-se realmente feliz. Depois descia para o jantar, tomava um banho e voltava à cama para ler ou assistir algum de seus filmes favoritos. O aconchego do edredom e a luz inconstante da TV sempre o faziam dormir. Algumas vezes sonhava, outras não e assim era o final de mais um dia normal de uma pessoa qualquer em algum lugar desconhecido desta imensa cidade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quando alguns querem que você não saiba

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“O mercado das almas está aberto a qualquer mortal que queira vender a sua em troca de um lugar onde não haja trânsito, alagamento e superlotação de transporte público” – Disse o sujeito que aleguei ser um morador das ruas. Bob Dylan aos meus ouvidos fechava o clima presente no momento. Meus tênis e minhas meias não resistiram à revolta dos céus. A natureza usa esses meios como forma de aviso aos que deveriam cuidar dela, por isso vingança não é um nome que se encaixa.

Era uma noite chuvosa de domingo e quase perdi o ultimo trem de volta para casa. Esperava na passarela o mêtro chegar, enquanto visualizava em volta esperando alguma movimentação. Sem sucesso, tinha apenas um casal de namorados sentado ao fim, abraçados e quietos. Eis que então chega o trem, entrei e sentei no banco mais próximo de mim. O vagão estava completamente vazio, lá tinha apenas minha pessoa com o tênis e as meias molhadas.

O trem seguia e passava algumas estações que já se encontravam fechadas, para minha sorte o meu destino, e a única aberta, era a estação final. Ali naquela paz me senti um pouco só, o que me fez sentir um arrepio estranho. “Porra, que conversa besta!” – discutia com minha consciência. Se eu dava uma de louco ou não dava, não fazia a mínima idéia de como eu entrava em contradição com a própria consciência. Apesar de ser maduro ainda brincava bastante com minha imaginação, apenas mentalizava e pronto, tinha uma cena na cabeça. Muitas delas era eu dando um chute na bunda de algum pilantra sem-vergonha que enchera meu saco ao longo do dia.

Deixei o receio de lado e aproveitei o vagão só para mim. Viajei em algumas ideais malucas, do tipo que você só imagina quando está sozinho em um lugar público. Um senhor escrevia no seu caderno, olhou e sorriu para mim. Em seu caderno tinha algumas inicias, eram elas “C.D.A”. Do outro lado havia um senhor negro tocando alguns acordes de blues em uma Gibson 335, virou para mim e disse – Tá vendo essa belezinha aqui! Eu a chamo de Lucille. Um cachorro batia em uma velha maquina de escrever, acompanhado de um pássaro amarelo no seu ombro.

Escritores são destinados a abusar de sua imaginação, mas eu exagerava. A criança dentro de mim ganhava espaço nessas horas, e a loucura era algo relativo. Depois de um tempo, comecei a se pilhar dormindo e sonhando que estava dormindo, ou desperto, mas desconfiado de que talvez estivesse dormindo.

Enfim cheguei ao meu destino com as dúvidas de sempre. Sai da estação quieta e vazia, que me fez voltar, por alguns minutos, a ser criança novamente. Caminhei em passos tímidos sob o chão molhado de uma noite chuvosa de domingo. A noite me abraçava carinhosamente, envolto de um clima agradável para mais uma caminhada até em casa.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Encontros e desencontros

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Já estava tudo monótono demais para perdermos tempo pensando. Ela estava ao meu lado, sentada e observando a paisagem. O sol refletia a luz nos seus olhos e a deixava ainda mais bela. Eu estava lá somente por sua causa e ela pela minha, mas não havíamos ainda chegado a um consenso. Talvez nem precisasse. A verdade é que ela esperava que eu me aproximasse lentamente, segurasse com o polegar delicadamente seu queixo e, assim, guiasse seu rosto levemente até meus lábios. Ela desejava isso. Eu podia sentir, mas o nervosismo que tomava conta de meu corpo era tão intenso quanto a felicidade que me inundava o coração apenas por estar ao seu lado. Por que na vida coisas tão simples como o amor se tornam tão complicadas?

A primeira vez que nos encontramos foi em uma padaria, no final da noite, voltando para casa. Estava fazendo meu pedido no balcão quando deixei cair minhas chaves. Em um breve segundo, ela se aproximou e devolveu os meus pertences:

– Você deixou suas chaves caírem. Toma! – E segurou minha mão como uma delicadeza incomum e me devolveu o molho de chaves. Não poderia dizer o que havia acontecido comigo, mas fiquei completamente imóvel e desejei que nunca mais suas mãos se separassem das minhas.

Acho que fiquei tanto tempo deslumbrado com sua beleza e principalmente com o inesquecível tom de sua voz, que simplesmente não a agradeci. Ela me olhou fundo nos olhos, balançou a cabeça e me deu o mais lindo sorriso que já recebi. Olhou para os lados e saiu em passos lentos pela saída. Ela estava sozinha e eu completamente fora de mim. Não a conhecia. Jamais a tinha visto, mas sabia que ela era a mulher de minha vida.

Quando me dei conta do que havia acontecido, saí correndo como um idiota da loja. Corri até a esquina e consegui alcançá-la. Ofereci-lhe uma carona e ela, desconfiada, aceitou. Fomos conversando durante todo o caminho e jamais havia me sentindo tão bem com um completo estranho. Nossas almas eram compatíveis e ficamos íntimos instantaneamente. Brincamos, rimos e quando menos percebemos, já havíamos chegado até a sua casa. Ela se despediu e me deixou um bilhete. Lá estava um agradecimento pela carona e por eu ter sido tão gentil. O número de seu telefone também estava junto e naquela noite voltei para casa como o homem mais feliz do mundo.

Três dias depois lhe telefonei. Apenas três dias para não me mostrar tão ansioso, mas na verdade foram os três dias mais longos que passei. Começamos a sair, ficamos ótimos amigos e agora estávamos aqui, sentados, sozinhos e esperando o sol se pôr.

Perguntava-me como ela podia estar tão tranqüila. Será que não tinha noção alguma de minhas intenções?  Ela era linda e todos sabiam disso. O mundo podia parar para vê-la, ali, apreciando o sol na beira da montanha e ninguém teria coragem para reclamar. Nesse meio tempo, resolvi parar de me lamentar e agir. Com um esforço incomum, controlei meu nervosismo e coloquei delicadamente minha mão sobre as suas. Era a pele mais macia que já tocara e senti um raio me penetrar o peito. A energia foi tão forte que ela percebeu. Aos poucos ela se virou em minha direção e meu deu um pequeno sorriso. Quando menos percebi, ela me beijou. Foi o beijo mais intenso que já tinha recebido. Ela havia facilitado tudo e estava apenas esperando o momento exato para isso. Os céus estavam, pela primeira vez, ao meu lado. Depois disso, tudo foi perfeito e nunca mais iria me esquecer cada momento passado ao seu lado.

Hoje estamos casados há 23 anos. Não posso dizer que sempre vivemos as mil maravilhas, mas nada teria sido o mesmo sem a sua companhia. Sou grato a cada dia por tê-la conhecido e espero que, daqui a 23 anos, possa escrever um texto ainda melhor para você. Eu te amo do fundo do meu coração. Muito obrigado!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Rock and roll suicide

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Fazia tempo que não chovia tanto. Há 45 dias a água caía sem trégua e vários pontos da cidade estavam alagados, infestados pelo caos e sem nenhum sinal de energia elétrica. O relógio batia 4:15 da madrugada quando os gritos do choro foram ouvidos. Em uma noite conturbada de uma grande metrópole, nascia uma das maiores estrelas que o país teve a chance de ver.

Era loiro, saudável, com olhos castanhos claros e muito, mas muito, esperto para uma criança que acabara de nascer. O tempo provaria que algo notável para o mundo havia acontecido aquele dia. Ele cresceu como uma criança feliz e travessa, rodeado de amigos e com idéias fascinantes que o tornavam líder em todas as atividades e brincadeiras que fazia questão de exercer. Não que tivesse real intenção em sê-lo, mas o posto lhe agradava o suficiente para permanecer sempre a seu cargo e continuo a comandá-lo por todos os círculos de amizade que freqüentava, também nas escolas e em qualquer lugar no qual estivesse presente.

Seus primeiros dotes musicais foram postos a prova quando ganhou um violão que pertencia a um falecido tio. Com alguns dias de prática, descobriu, sem nunca ter encostado em um instrumento antes, que a música fazia parte, agora, de sua vida e nunca mais o deixaria sozinho. Passou a escutar tudo o que lhe agradava e o fascinante mundo do rock and roll penetrou em seus interesses como um caminho seguro, misterioso, descontrolado e obsessivo pelo qual não podia mais se esquivar.

Com os anos passou a estudar com afinco guitarra e piano e logo, logo já estava compondo suas primeiras canções. Era um aficionado por música, mas as bandas nacionais nunca conseguiram lhe tocar muito. Cazuza e Secos e Molhados eram grandes exceções que realmente o inspiravam, mas possuía um ódio mortal por Renato Russo e sua Legião Urbana. Simplesmente não suportava ícones que atravessavam a fronteira das notas e tentavam de alguma forma mudar o mundo com letras “cabeças” e discursos inflamados. Seus fãs, algumas vezes, também eram insuportáveis. O que realmente lhe interessava era aproveitar a diversão, felicidade e sucesso que tudo aquilo poderia ou acabava por trazer.

Nunca fora o mais belo e esbelto nas classes onde estudou ou nas bandas que começou a tocar, mas tinha uma aura mágica que atraía, sempre, a libido feminina. Nunca se interessou em procurar um verdadeiro amor, mas isso nunca o impediu de estar frequentemente acompanhado. Era um romântico nato e suas músicas faziam qualquer mulher se apaixonar, mesmo que por alguns pequenos instantes. Foi também no final da adolescência que passou a experimentar diferentes tipos de drogas, legais e ilegais, e mergulhou de cabeça no velho jargão “sexo, drogas e rock ‘n’roll” que seus ídolos faziam questão em seguir. Essa nova descoberta passou a acompanhá-lo sempre a partir de então. As sensações diferentes e distorcidas da realidade lhe agradaram desde o começo e a obsessão por novas experiências o motivaram a viajar por este caminho cada vez mais.

Suas músicas começavam a se destacar e seu nome passou ser conhecido, não porque se esforçava para que isso acontecesse, mas pela sinceridade com que retrava aquilo que pensava, sentia ou procurava. Seu talento musical foi essencial para criar um leque de canções que ficariam guardados na história. Depois do primeiro contrato, uma bomba destruiu o cenário musical brasileiro e apenas um nome passou a guiar o público. A massa gritava, clamava, comprava e usufruía tudo a seu respeito. O resto das bandas e artistas aproveitaram a cratera criada e o novo cenário que surgia para seguirem o seu encalço. Isso fez com que grandes nomes surgissem e selasse de vez o novo movimento.

No segundo álbum, as festas e orgias eram cada vez maiores e o uso freqüente de entorpecentes começou a dominar sua vida. Nessa época, se envolveu com os tipos mais estranhos e incomuns de pessoas que rodeavam o mainstream.  Ficava cada vez mais cansado e incontrolável, mas isso não atrapalhava nem um pouco sua criatividade artística. Assim, nesse mundo impensável para as pessoas normais como nós, conheceu a estilista mais famosa do país. Era tão nova quanto ele e bela como jamais havia visto. Tão linda que mesmo que juntasse os melhores atributos de todas as mulheres que já havia dormido, e não eram poucas, não chegaria a seus pés. Ela também tinha uma queda fantástica por festas e diversão incontrolável.  As drogas eram uma grande companheira em comum, porém ela podia entregar-se ocasionalmente e voltar toda vez que quisesse, ou precisasse, à realidade. Passaram a viver um romance conturbando e perturbador. Os dois se amaram como nenhum outro casal em todo o mundo e pela primeira vez nosso protagonista podia sentir a indescritível felicidade de um amor sincero e verdadeiro. Suas obras posteriores ganharam um novo brilho e, claro, mais sucesso, dinheiro, drogas e diversão acompanharam a avalanche.

Mas sua vida não fora sempre felicidade e satisfação. O imenso sucesso, o gigantesco orgulho e o incontestável instinto de liderança começaram a afetar suas relações pessoais e, por mais que se esforçasse, não conseguia mudar, pois, agora, o mundo estava em suas mãos. Brigou com tudo e com todos. A depressão se tornou uma visita constante e as drogas, que nunca o deixaram, mostraram-se seu único amigo. Sua vida de diversão e loucura continuou, mesmo que estivesse sozinho. A autodestruição era uma estrada que não se importava nem um pouco em seguir e que esteve presente em todos os momentos de sua vida, mas que somente agora se mostrava visível.

Sua amada não podia agüentar todo esse ódio em um mundo caótico e suicida.  Viver lado a lado com tamanho sofrimento, tornou-se insuportável. Ela fez tudo o que estava ao seu alcance para tentar impedi-lo, mas o seu ego monstruoso e, principalmente, o gigantesco amor próprio eram muito maiores do que qualquer amor que já tivesse sentido. O seu orgulho e egoísmo o fizeram deixar para trás a única mulher que realmente amou. Era a única pessoa que realmente se importava com tudo o que acontecia ao seu redor e seus conselhos sempre foram sinceros e verdadeiros. Ele tinha clara consciência disso e que, apesar dos grandes empecilhos, ela o amava a mais que tudo nesse mundo. Ele sabia, mas simplesmente não podia mais conviver assim e simplesmente abandonar o que pensava ser sua verdadeira “felicidade”.

Em meio a uma chuva de lágrimas e sofrimento, compôs mais um disco que, novamente, foi aclamado por público e crítica. Porém a essa altura nada mais importava. Nem o sucesso e o glamour de um grande astro. Não tinha mais amigos. Não tinha condições de viver ao lado de seu grande amor. Não tinha absolutamente mais nada nem ninguém. E mesmo que tivesse mais dinheiro do que pudesse gastar, nada mais o fazia feliz. Mergulhou, então, em um mundo privado cheio de solidão e infelicidade que apenas ele poderia explicar. Suas aparições em públicos se tornaram raras e, pela primeira vez em toda a sua vida, deixou de escrever e tocar. Algo estava muito e errado e finalmente ele percebia isso, mas talvez já fosse tarde demais ou simplesmente não se importava se a essa altura chegaria a voltar ao mundo real. Ficou extremamente recluso. A cada nova overdose ou crise psicótica que era relatada pela mídia e declarada pelos diversos hospitais pelo qual passou a freqüentar, ficava claro que logo, logo uma tragédia aconteceria.

Quando o mundo noticiou sua terrível morte, enclausurado, sozinho e abandonado em sua banheira a mais de três dias, o país chorou em uníssono. Ninguém, nem mesmo ele, poderia imaginar o quanto era idolatrado e amado pelas pessoas. Muitas nem mesmo acompanhavam o seu trabalho, mas o seu carisma e todas as histórias que o perseguiam, o tornavam um ser mítico e intocável. O enterro foi televisionado e diversos artistas e pessoas que o conheceram verdadeiramente prestaram suas homenagens. O Brasil havia perdido um eterno ícone e uma mente brilhante, mas ninguém podia e queria carregar toda essa culpa. Apenas o seu imenso ego e o sucesso incontrolável justificavam que a sua mente suicida e a simpatia pela autodestruição o levassem a tal, porém os motivos não importavam mais.

Hoje, e sempre, fica claro que ele jamais será esquecido. A partir de agora só nos resta olhar para o céu e perceber que uma nova estrela passou a brilhar.

domingo, 31 de janeiro de 2010

A jornada

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Não seria fácil encontrar um caminho certo pelo qual seguir, mas ele estava disposto a tentar. Chovia a mais de três dias sem parar. O vento era forte e cortante. Seus amigos já não acreditavam se ele seria capaz de chegar até o fim e voltar com vida. Apoiando o cajado sobre a terra, se esforçava ao máximo para manter os olhos abertos e continuar, aos poucos, seguindo a estrada.

Seus pés e mãos estavam cheio de calos e, das feridas, escorriam pequenas gotas de sangue que ardiam a cada nova queda. As pedras no caminho dificultavam cada vez mais o seu percurso e a areia que arranhava seus rosto com as rajadas do vento transformavam seu medo em algo ainda mais perverso.

Por que tanto esforço e dedicação? A crença e a necessidade de alcançar o perdão verdadeiro o motivavam, e muito. A neblina que se e erguia a sua volta, não lhe permitia enxergar mais de três palmos a sua frente. A fome e a sede eram tão grandes que já não incomodavam mais. Os pensamentos lhe convidavam sempre a desistir. Nem sempre apenas força de vontade e amor são suficientes para alguns.

Após muita caminhar, finalmente conseguiu perceber algo novo durante o infernal trajeto.  Uma gigantesca sombra começava a surgir a sua frente. Será que depois de tanto lutar, havia chegado ao seu desejado destino? A neblina pouco a pouco foi cessando e a chuva intensa pela primeira vez parou de cair. Foi o primeiro sorriso que expressou durante toda a jornada. Após alguns metros o sol voltou a brilhar e ele se deparou com uma enorme mansão que dominava a última parte de terra habitável daquela monstruosa colina. A beira do penhasco, um mundo novo se abriu e a felicidade voltou a reinar em seu peito.

Aproximou-se lentamente da imensa construção. Enquanto caminhava, retirou com muito cuidado uma carta que estava dobrada ao meio dentro se seu bolso direito da, agora esfarrapada, calça jeans. Ante a porta, encontrava-se uma bela cesta de frutas com um papel indicando seu nome na extremidade. Ajoelho-se e segurou nas mão a maçã mais vermelha e bonita do cesto. Deu apenas uma mordida e arremessou a fruta para longe. Colocou com cuidado a carta na caixa do correio e virou-se para o horizonte. Voltou lentamente a caminhar e se aproximou da beira da montanha. Podia sentir a brisa sobre cada parte do seu corpo. Olhou para baixo, mas não era possível enxergar onde acabava a montanha e o mundo recomeçava. Quando parou um segundo para observar o céu, uma estrela cadente cortou o horizonte ao meio. Era a primeira vez que via uma. Deu um grande suspiro e mergulhou para o infinito. Sua missão estava cumprida.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Tal Final de Ano

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Com o fim do ano próximo e a falsidade rolando solta por aí, desejava novos horizontes, um ar diferente do que eu ando acostumado a respirar. Não sei se é uma opinião pessoal, mas alguns hão de concordar que o fim do ano as pessoas enlouquecem um pouco. Principalmente as que são reprimidas em seu cotidiano e exageram um pouco achando que “a hora é propícia”.

Enfim, peguei minha mala e minha velha barraca para viajar longe da grande metrópole. Acompanhado de alguns grandes amigos segui para uma ilha, onde a população, em sua grande maioria, se encontrava em um vilarejo de simples pescadores. Logo na balsa tive uma pequena impressão de conhecer alguns rostos de algum lugar qualquer. Fiquei só na impressão mesmo, para mim, naquele momento, não queria nenhuma ligação com a cidade.

Sendo assim o primeiro dia foi normal. Conhecendo os locais, conhecendo os nativos, regado a muita bebedeira e conversa. Minha boa fé estava em êxtase só que minha consciência negativa sussurrava, bem baixinho no meu ouvindo, dizendo que estava normal demais. Longe de ser um cara negativo, mas como posso dizer, eu tenho uma grande tendência para atrair louco. E meu instinto, quase, nunca erra.

Segundo dia, logo ao cair da noite, resolvemos pegar a balsa para aproveitar uma festa que acontecia na cidade próxima da ilha. Pisei em terra firme e dei de cara com um amontoado de gente. “Merda” foi o primeiro pensamento que tomou minha cabeça. Pessoas, tumulto, muvuca, povinho ou qualquer substantivo que possa explicar um grande aglomerado de pessoas. Mesmo que você fuja, eles sempre estarão atrás de você. Morro de medo de pessoas.Aproveitei a festa como um ser humano decente, sem maldade no coração e sem espaço para críticas (?!). Então havia chego ao fim, e sem nenhuma novidade eu já me encontrava embriagado. A pergunta que animou minha noite foi – “Você ta bêbado?

Einstein dava pulos no caixão invejando meu cabelo naquele momento, com o óculos torto a um ângulo de 45º graus e com um sorriso de meia boca tentava acender um cigarro molhado. Então lhe respondi com toda sobriedade: - “Não!”.

Arrotei e encostei no coqueiro. Nem deu tempo de acender o cigarro, o sono foi mais rápido.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Por você, por mim e por nós

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Poderia ter feito tanto
Por você
Por mim
Por nós

Poderia ter dito “Eu te amo”
Poderia ter escrito seu nome nos livros, folhas e cadernos
Poderia ter lhe enviado flores e dado presentes
Poderia ter escrito músicas, textos e poemas
Apenas para lembrar-me que você estava sempre por perto
Mas não o fiz

Poderia ter lhe telefonado durante as noites em claro
Poderia ter me preocupado um pouco mais
Poderia ter lhe contado o quanto sentia sua falta
Poderia ter lhe escrito cartas de amor
Poderia ter lhe convidado para ver o céu ao meu lado
Para me acompanhar e sentir a leve brisa da manhã
E não me importei em fazê-lo

Poderia ter mostrado mais o meu carinho
Poderia ter observado e apreciado cada detalhe
Mesmo que não fizesse idéia do que estivesse falando ou fazendo
Poderia ter lhe visto dormir
Poderia ter lhe feito sorrir
Deveria ter lhe feito ver o quão importante era caminhar ao seu lado

Poderia ter lhe dado a mão
Poderia ter lhe deixado adormecer sobre o meu colo todas as noites
Poderia ter dado muito mais atenção
Poderia ter dividido muito mais
Poderia ter me dedicado mais um pouco

Poderia ter aproveitado o tempo que deixei de vê-la
Por compromissos fúteis, por falta de vontade
Poderia ter me importado com tudo que a envolvia
Poderia ter lhe levado há lugares que eram importantes para você
Poderia ter tido a curiosidade para encontrar a simplicidade que a fazia feliz
Para observá-la enquanto se arrumava em frente ao espelho
Para admirá-la enquanto sorria, chorava ou fingia
Ficou claro que poderia ter lhe apoiado nas situações difíceis
Mas não consegui perceber o que era realmente importante naquele momento

Poderia ter feito dos seus planos também os meus
Poderia ter tido coragem para dizer-lhe a verdade
Poderia ter lhe recordado que ninguém poderia substituí-la
Não importasse a beleza, carisma ou vontade que tivesse
Poderia ter me esforçado

Poderia ter lutado ao seu lado
Poderia ter lhe deixado sentir minhas verdadeiras emoções
Poderia ter lhe mostrado que, com você, o brilho do céu era diferente
O calor do sol mais vivo
E que o mundo, finalmente, se mostrava um lugar melhor

Poderia ter feito tanto
Por você
Por mim
Por nós

As lágrimas caíram por muito tempo
E você, um dia, se foi